Arquivo da categoria: Vozes do Samba

CARNAVALESCO CAMPEÃO

FALA RAPHAEL SOARES!

Minha história com o GRES Consulado começou antes de chegar efetivamente nela. Tudo aconteceu após o meu encontro com “Aleixo Garcia” através da escrita do Sandro Roberto de Oliveira. Eis que o destino quis unir o enredo com a escola, e assim eu chego no Caeira do Saco dos Limões. Por isso eu sempre digo, o que me levou pra escola foi o Aleixo. E vencendo as desconfianças de algumas pessoas, vencemos aquele carnaval! E quão inesquecível pra mim, mais do que meu primeiro título no carnaval em 2005, foi ouvir da Dona Iraci que, aprendeu comigo a usar prata com dourado e juntos eles davam certo. Ganhei o carnaval naquele momento.

Mais seguro comigo mesmo e definitivamente aceito na comunidade vermelha e branca, fomos buscar o Bi campeonato nas sombras da Velha Figueira, na exaltação a Praça XV.

O Tri veio com as Vinte luas de saudades de Içá Mirim… Um marco pra mim! Ajudar o Consulado a conquistar novamente um tricampeonato. Na epopeia de Savas o tetra não veio por pouco, acho que ele ficou pela Conselheiro Mafra. Mas a estrela voltou a brilhar no ano seguinte! Foi quando Macunaíma resolveu passear por Santa Catarina e encontrar os Quilombos para descobrir que a nossa raça é única! A chamada raça do amor. Questionaram esse título, tentaram nos tirar, alguns pensam que conseguiram, mas o troféu continua no Caeira.

O clima esquentou na folia da capital. Chamamos os bombeiros pra tentar arrumar as coisas. Mas a escola ficou marcada pela polêmica anterior e começou uma certa perseguição a partir de então. Joãosinho Trinta já dizia: “O povo não gosta de quem ganha muito e nem de quem perde sempre” sempre sábio o rei do Carnaval.

Nos passos de variadas danças tentamos acertar o compasso. Mas nada mudou! A perseguição continuava. Ao fim desse desfile, e após sete carnavais consecutivos, quis tentar dançar em outros palcos. E fiquei longe por 5 anos.

Voltei quando o Consulado também retornava pra elite. Depois de uma passagem pelo grupo de Acesso. E contando a história do próprio bairro, veio também um terceiro lugar com gosto de campeonato. Quebramos o estigma! Ano seguinte realizei o sonho de homenagear o meu maior ídolo na folia. E coroamos João como rei na Nego Quirido.

Até que, na simplicidade de um personagem que buscava o sentido de ter o coração no peito, conquistamos mais uma estrela para o nosso pavilhão! “Aqui encontrei o amor na raiz. Ser Consulado me faz feliz”. E o homem de lata descobriu no samba, o motivo que faz nosso coração bater.

Eis que chegamos em 2020… Depois de falar do amor, vamos falar de luta! Luta por um país com direitos iguais entre homens e mulheres. Luta por mais educação. Luta contra todos os preconceitos… Através da história de uma professora e seus “Farrapos de ideias”. Antonieta esteve presente! Antonieta estará sempre presente conosco. E agora sempre lembrada através

de um dos sambas mais lindos da história do Consulado.

Depois do amor, depois da luta… Depois de um período de trevas no mundo. Escolhi falar da alegria no próximo Carnaval. E que melhor maneira de falar de alegria, do que falando da própria história da nossa folia. Nosso Ziriguidum será em homenagem as mais de 600 mil vidas que não terão a oportunidade de viver a alegria de mais um Carnaval.

E assim vamos seguindo. Resistindo e persistindo. Pois do outro lado do túnel tem um lugar onde os sonhos se realizam. E se transformam em fantasias.

Raphael Soares é natural de Nilópolis RJ e mora em São José SC, sua mudança para o Sul aconteceu em 2003. Começou sua trajetória no Carnaval em 1997 na Escola de Samba Mocidade São Miguel, no Guarujá em Santos SP. Em 1998 e 1999 participou do carnaval em Portugal, assinando os figurinos da Claustrofolia na Cidade de Alcobaça. Aventurou-se como compositor de Samba Enredo, concorrendo nas Escolas Águia de Ouro SP, e Beija-Flor de Nilópolis RJ. Em 2001 estreou como carnavalesco na Unidos da Coloninha em Florianópolis SC onde permaneceu por quatro carnavais. Já assinou os carnavais da Acadêmicos da Barra da Tijuca e Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador no Rio de Janeiro. Conquistou três títulos na Escola de Samba Protegidos de São Carlos da Cidade de Lages SC. No GRES Consulado em Florianópolis, conquistou cinco títulos. Assinou os carnavais das Escolas de Samba Vai Q’Vira de Mongaguá SP, Unidos do Praião de Santos SP, Primeira da Aclimação de São Paulo SP e Independência do Jardim Casqueiro de Cubatão SP, onde conquistou quatro títulos, e Unidos dos Morros de Santos SP. Na Escola de Samba Os Protegidos da Princesa de Florianópolis SC, conquistou dois títulos. Foi carnavalesco da Escola de Samba Príncipes do Samba de Joinville SC em 2015. Participou da equipe do carnavalesco Danilo Dantas nas Escolas de Samba Barroca Zona Sul, Dragões da Vila Alpina e Colorado do Brás. Em 2017 foi carnavalesco da Mocidade Unida da Mooca. Participa do Carnaval Virtual desde 2004, onde é o atual campeão com a Imperiais do Samba. Fora do Carnaval, Raphael Soares continua envolvido com cultura, ministrando Oficinas de Teatro e de carnaval, escrevendo textos teatrais. Já foi Jurado nos Carnavais de Sombrio SC e Cruz Alta RS. Palestrou em cursos de história e moda falando da construção de enredo e figurinos de carnaval. Em 2016, foi homenageado pela Escola de Samba Jardim das Palmeiras de São José SC em sua estreia como Escola de Samba desfilando em Florianópolis, com o enredo “Raphael Soares – O Vôo do Menino Beija-Flor”. Atualmente, além do GRES Consulado, também é carnavalesco da Unidos da Cova da Onça de Uruguaiana. E está fazendo parte da Comissão Artística da Escola de Samba Dom Bosco de Itaquera SP.

“PATRIMÔNIO CULTURAL”

Aqui na aba VOZES DO SAMBA convidados escrevem sobre suas reflexões,  suas constatações, suas pesquisas e contribuições para o engrandecimento do Samba e do Carnaval.

DIZ AÍ MARCELO MACHADO!

Respeitem Meu Pavilhão, pois, Meu nome é Patrimônio Cultural!

Recebi a honrosa missão de escrever, um artigo para o site ‘Velha Guarda Eu Sou’, da amiga Graça Carneiro, para falar da importância das escolas de samba, enquanto um patrimônio cultural brasileiro. Honrosa e difícil missão, pois, quem melhor, pra falar sobre o tema, do que a própria Graça? Salgueirense do coração, por carioca de nascimento e, ‘Consulado’ no peito, por Florianopolitana de tantos renascimentos…! Sim, as histórias dessas duas entidades carnavalescas e, dessas duas cidades litorâneas estarão, por muitas vezes entrelaçada, nos artigos que minha amiga pretende compartilhar conosco, a partir desse seu mais novo empreendimento cultural, que já nasce sob o manto, de uma afirmativa bandeira e, de uma assumida identidade: “Velha Guarda, Eu sou!”. Mas sobre todo o acervo cultural, que essa arte educadora ‘Catarioca’ – Híbrido de Catarinense com Carioca, como ela mesma diz nos legou, nessa intersecção Salgueiro/Consulado e, no cruzamento Rio/Floripa, vamos deixá-la dizer-nos, nas páginas desse Site, que pisa forte, nessa ‘avenida’ virtual, da cibe cultura.

O desafio de dizer algo sobre um tema, que nos é muito internalizado, como o carnaval, também é saboroso, por levar-nos á revisitar conceitos, traçar paralelos e, nesse percurso perceber, como as relações Escolas de Samba  com a cultura brasileira são intrínsecas as próprias questões, daquilo que se entende contemporaneamente por Patrimônio cultural, algo que se transformou ao longo do tempo, da mesma forma, que a expressão das Escolas de Samba, ao longo da sua história. E assim, como uma sinopse de enredo, á lá Magalhães, a Rosa, dos enredos históricos com toda pompa e, circunstância, eu me lanço nesse desafio, mas, de largada, já pedindo passagem, afirmo: Ambos, ‘patrimônio cultural’ e ‘Escolas de Samba’, não são conceitos, que surgiram de forma isenta. Eles surgem em meio a conflitos, problemas, disputas!

Setor: A História é o Patrimônio. 

E essa história começa longe. Para ser bem exato, no tempo do Império Romano, quando surgiu o conceito de ‘Patrimônio’: uma coisa monumental, por isso mesmo importante e, que justificava ser preservada e difundida entre a população. Estamos falando, portanto, da compreensão ligada á um grupo das elites. Avança nosso ‘enredo’ e, o marco histórico seguinte está na Revolução Francesa, quando vemos a contestação do poder da monarquia pelo povo. E, outro marco vamos encontrar, no final da Segunda Guerra Mundial, que como sabemos teve como base, a ideologia fascista e nazista calcada em ideais nacionalistas exacerbados, racistas, excludentes e, de perseguições á tudo o que fugisse á essa ideologia da Europa dominante. No final desse grande conflito, um movimento mundial de contestação, pautado por comissões e comitês, passou a criar uma legislação sobre o patrimônio. Mas até então, ‘patrimônio legal’ ainda era tudo aquilo que podia ser transferido para herdeiros e tinha seu valor comercial. Ficava de fora da compreensão de patrimônio cultural, aquilo que só possuía valor ‘Emocional’ e, cuja importância é repassada de geração á geração. Eis que surgem, a ONU e, a UNESCO. Inicia-se uma discussão, em torno da questão patrimonial, que se amplia, na época, para aqueles, até então, ditos ‘países do 3° mundo’. Países pobres, colonizados, de populações não letradas, como os indígenas e, “ex-escravos” com seus acervos culturais de manifestações, na oralidade, nas danças, nas festas e, outras formas de expressão. Porém, sempre vistos, pela elite intelectual como algo ‘puro’, que deveriam ser congelado no tempo. O grande marco mundial, desse nosso ‘enredo’ está mesmo, no México, no ano de 1982 quando, o conceito de Patrimônio Imaterial é incorporado às cartas patrimoniais da ‘UNESCO’. Patrimônio Imaterial, portanto é exatamente aquilo que possui valor ‘Emocional’. “É algo ligado ao espiritual, a festas, a manifestações populares, saberes populares, a histórias que se contam, enfim coisas mais ligadas ao cotidiano, que não são tão singulares, mas que fazem parte da vida de grupos”.

No Brasil é, a partir da constituição de 1988, que temos assegurado o registro de bens da cultura imaterial. Mas como nos confirma Silvia Costeiro – Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco, como esse registro pode ter representação para um grupo e não para outro a palavra de ordem para conceituar patrimônio cultural, no sentido de compreendermos a complexidade desses patrimônios é ‘Diversidade’.

Setor: Carnaval Brasileiro.

Uma das grandes marcas da brasilidade é o carnaval. E ele foi abrasileirando-se através do tempo.  Afirma Maria Isaura P. de Queiroz, que além de ser uma das maiores festas nacionais, o “carnaval assumiu, no país, um caráter verdadeiramente popular e, portando significados educativos, sociológicos e antropológicos relevantes sobre a nossa cultura”.

No Brasil, as concepções de identidade cultural e identidade nacional se confundem justamente por estarem interligadas num patrimônio cultural semelhante, que é a cultura afro-brasileira. Esse fato compõe o nacional, onde se aglutinam todas as coletividades étnicas e, todos os extratos sociais. Os traços de afro brasileiros são portadores de brasilidade. E assim como a compreensão do que seja um ‘Patrimônio cultural’ se transformou ao longo do tempo, até chegar nessa visão, mais abrangente, que preza pela diversidade, a Escolas de Samba é um patrimônio, que nasceu, cresceu e, se transformou, a partir do debate político e da transformação da sociedade brasileira. “Em certo sentido – nos diz a historiadora Monique Augras, o desenvolvimento das escolas de samba, até chegar à atual feição de “maior espetáculo da terra” é pautado por episódios sucessivos de docilidade, resistência, confronto, negociação, pondo em cena diversas modalidades de solução para o conflito entre desejos e necessidades, entre expressão genuína e o atendimento ás exigências dos diversos patrocinadores, sejam eles ligados ao Estado, à indústria turística ou à contravenção”.      

E, se hoje o carnaval é planejado e organizado pelas secretarias de turismo dos estados, e municípios, antes, apenas as classes pobres ganhavam visibilidade, ao se fantasiarem de luxo. ‘Aqui tudo acaba em samba’ ou, ‘somos o país do carnaval’ são algumas das expressões que você já deve ter ouvido e, até repetido. No seu livro “O Brasil do Samba EnredoMonique Augras nos dá a dimensão das transformações do carnaval. “Do lado do povão, saíam às ruas os ‘blocos’ pobremente fantasiados com apetrechos improvisados, os ‘Cordões’, agrupamentos marginalizados e, Ranchos’. Foi na junção dos ‘Ranchos’ – herdeiros, por sua vez dos ternos de reis nordestinos, com os blocos e cordões das ruas do Rio de Janeiro, que se deu aquilo que viria a serem as escolas de samba, do mesmo modo que foi o encontro, nos terreiros de candomblé dos devotos cariocas, com o samba baiano de roda, que se deu origem do samba” No carnaval, só o Brasil tem a sua trilha sonora original para essa festa mundial.

Setor: Respeitem Meu Pavilhão! 

No caminho rumo à respeitabilidade, a alcunha de ‘escola’ ganhou terreno. As brigas violentas, do início do século foram substituídas pelos concursos. Não por acaso, o primeiro concurso entre escolas de samba foi organizado por um jornal desportivo, uma instituição, que teve influência na valorização do futebol brasileiro, outra manifestação de origem europeia, que se abrasileirou suplantando a sua origem. Ainda nos anos 30, os poderes públicos se interessam pelas escolas de samba e, o desfile é absorvido na programação oficial da prefeitura. É desse período, o surgimento do samba combinado com o enredo. “O primeiro regulamento para os desfiles, sob a exclusiva responsabilidade do poder público, foi feito em 1939, no limiar do Estado Novo, não como uma imposição, mas estabelecendo um clima para tal” (Riotur,1991:30).

Do reconhecimento na década de 30, passando à autocensura, na década seguinte, perpassado regulamentos, a obrigatoriedade por temas patrióticos, a proibição do ‘sonho ou, imaginação’, a mudança de quesitos, na forma de julgamento, a conquista do mercado fonográfico pelos Sambas de Enredo em fins dos anos 60, a contratação de equipes de técnicos e artistas plásticos, nos anos 70, até desembocar no formato de desfile, tal como conhecemos hoje, transformado em produto de televisão, projetando para o mundo a cultura brasileira em transmissões via satélites, as Escolas de Samba provaram, que estão longe de identificar-se unicamente com as manifestações folclóricas, que repetem a tradição, congeladas. Como sempre se adequaram rápido, aos novos tempos, não temos dúvidas, em dizer, que sobreviverão, ao ‘novo normal’, de um mundo pós-pandemia. Como bem descreveu a escritora Cristiana Tramonte, em seu livro “O samba Conquista Passagem”, as escolas de samba abarcam um ‘lócus’ educativo, encenado por várias possibilidades educativas, subdivididas em pedagogias: da ação social, da ação política, dos valores éticos e morais, da ação cultural, além é claro, da pedagogia da arte, que promove um mundo de expressões simbólicas, como uma maneira legítima de discursar sobre a realidade, que fica registrada, ao final de qualquer desfile simples ou, suntuoso é, que por ali passa o “resultado de uma vitória das classes populares de origem negras, a qual, através de muita luta e capacidade organizativa logra hegemonizar culturalmente o carnaval, dando-lhe sentimento, artístico, força cultural e, social”. E assim, dizendo de sua importância na transmissão do saber, construindo a identidade de um grupo e principalmente, assimilando a diversidade cultural brasileira e, envolvendo todas as classes sociais, as escolas de samba seguem potencializando o seu valor e clamando: Respeitem o meu pavilhão, pois meu nome é Patrimônio Cultural.

Marcelo Machado

CURRÍCULO

MARCELO MACHADO – Florianópolis – 16/07/1963

Formado em Educação Artística com Habilitação Artes Plásticas/ UDESC-1995 e, Especialização em Linguagem Plástica Contemporânea/UDESC-1999.

Atua com as linguagens da Fotografia; Mídias Eletrônicas; Cultura Popular e, Pesquisa Cultural de Imigração.  Atua como Arte-Educação na rede Estadual de ensino desde 2002 e, como Carnavalesco, desde 1985. Assinala passagens pelas Grandes Sociedades Carnavalescas e, escolas de samba da capital como aderecista e, autor de enredos. Seu último trabalho foi em 2012, ao lado de Fernando Albalustro, como carnavalesco e autor do enredo “Atlantis Insulae: Açoriano é ser do mar”. É Membro fundador da Oficina Crítica de Carnaval criado no carnaval de 2016. ( https://youtu.be/sHpT3nX5aBE)